Cientistas identificaram quatro novas espécies de cogumelos verdes na Amazônia, cujos papéis ecológicos permanecem um mistério e cuja sobrevivência está ameaçada pelo desmatamento
A Amazônia guarda um mistério que chamou a atenção de pesquisadores: cogumelos verdes raros, até então desconhecidos pela ciência, foram encontrados em áreas de floresta no norte de Mato Grosso. Ao todo, quatro novas espécies de fungos foram identificadas nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) Cristalino. O que mais surpreendeu os cientistas foi a aparência de duas delas, com uma coloração verde pouco comum, e o fato de ainda não se saber exatamente qual função desempenham no ecossistema.
A descoberta foi descrita em um artigo científico publicado em 2026 na revista Phytotaxa. O estudo foi liderado pela pesquisadora Juli Simon Cardoso, atualmente doutoranda em Biologia de Fungos, Algas e Plantas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A investigação começou durante o mestrado dela no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), entre 2018 e 2020.
- Os cogumelos verdes são raros entre espécies do gênero Hygrocybe, que normalmente apresentam cores vermelhas, amarelas ou alaranjadas;
- A descoberta começou com fotos de uma parataxonomista alemã compartilhadas em grupos de redes sociais;
- As duas espécies de cor mais verde são encontradas apenas em áreas específicas, o que as torna vulneráveis;
- Cientistas ainda não sabem qual o papel ecológico desses fungos, apenas que não são decompositores;
- A escassez de verbas e profissionais especializados dificulta o avanço da micologia no Brasil.
Segundo Juli, a tonalidade dos fungos foi uma das características que mais despertaram interesse durante a pesquisa. Isso porque a maioria das espécies do gênero Hygrocybe apresenta cores avermelhadas, amarelas ou alaranjadas.
"Acho que o que mais surpreendeu foram as espécies verdes. Realmente não são tão comuns. A maioria das espécies de Hygrocybe são vermelhas, amarelas ou alaranjadas", explica a pesquisadora.
Como os cogumelos verdes foram descobertos na Amazônia
Embora esses fungos sejam capazes de produzir diferentes pigmentos, os cientistas ainda não encontraram uma explicação definitiva para a coloração verde dos exemplares amazônicos.
A descoberta começou de maneira inesperada, a partir de fotografias compartilhadas nas redes sociais. A parataxonomista alemã Susanne Sourell visitava anualmente a região do Cristalino e publicava registros dos cogumelos no grupo "Cogumelos do Brasil", no Facebook.
As imagens chamaram a atenção de outros integrantes da comunidade científica, que levantaram a possibilidade de se tratar de espécies ainda não descritas. Como Juli já trabalhava com fungos do gênero Hygrocybe, Susanne entrou em contato com a pesquisadora.
"Todo mundo dizia: 'nunca vi, espécie nova'. Ela descobriu que eu trabalhava com Hygrocybe e começou a conversar comigo", relembra Juli.
As coletas foram realizadas entre 2018 e 2019, em trilhas de floresta de terra firme nos municípios de Alta Floresta e Novo Mundo, no norte de Mato Grosso, próximos ao Parque Estadual Cristalino.
Para confirmar que os exemplares eram realmente inéditos, os pesquisadores analisaram características físicas e microscópicas, como tamanho, formato, coloração e estruturas dos fungos. Também realizaram comparações genéticas entre o DNA coletado e o material de espécies já conhecidas. O trabalho resultou na identificação de quatro novas espécies, que incluem Hygrocybe cristalinoensis, com chapéu e pé verdes e bordas brancas; Hygrocybe viridilacerata, com chapéu rasgado em forma de estrela ao amadurecer; Hygrocybe pegleri, com pé maior que 10 cm; e Hygrocybe vinaceosquamulosa, com chapéu escamoso e tons arroxeados.
Cientistas ainda não sabem qual é a função dos cogumelos
Se a aparência dos fungos já surpreendeu os pesquisadores, o papel deles na floresta representa um desafio ainda maior. Apesar da importância dos cogumelos para o funcionamento dos ecossistemas, as espécies do gênero Hygrocybe ainda guardam questões sem respostas.
De acordo com Juli, esses organismos são simbiontes, ou seja, estabelecem associações com outros seres vivos. No entanto, os pesquisadores ainda não conseguiram identificar com quais organismos eles se relacionam nem como essas interações acontecem.
"Esses cogumelos em específico do gênero Hygrocybe são simbiontes, mas ainda não sabemos com quais organismos estão fazendo associações e qual seria essa associação", afirma.
Pesquisas anteriores sobre o grupo indicam que esses fungos não atuam como decompositores de matéria orgânica e também não formam as associações conhecidas como micorrizas, estabelecidas entre fungos e raízes de plantas.
"Então sabemos o que eles não são, mas ainda não sabemos o que são", resume a pesquisadora.
Cogumelos raros podem estar ameaçados pelo desmatamento
A falta de respostas também está relacionada ao conhecimento ainda limitado sobre a diversidade de fungos no Brasil. Embora a Micologia, área dedicada ao estudo desses organismos, tenha avançado nos últimos anos, ainda existem grandes lacunas na identificação e classificação das espécies brasileiras.
Juli aponta que a escassez de profissionais especializados, investimentos e incentivos à pesquisa dificulta o avanço dos estudos e mantém milhares de organismos longe do conhecimento científico.
Além das dúvidas sobre sua função ecológica, os pesquisadores também demonstram preocupação com a conservação das novas espécies.
Duas delas, Hygrocybe cristalinoensis e Hygrocybe vinaceosquamulosa, foram encontradas até agora apenas nos locais onde ocorreram as primeiras descobertas.
A pesquisadora realizou coletas em outras áreas da Amazônia, incluindo regiões de Manaus e do médio Rio Negro, no Amazonas, a Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, e o Parque Nacional do Viruá, em Roraima. Mesmo com as buscas, os mesmos cogumelos não foram encontrados nesses locais.
A ausência de novos registros pode indicar que as espécies tenham distribuição restrita à bacia do Rio Cristalino ou a áreas próximas. Caso essa hipótese seja confirmada, a perda de habitat pode representar uma ameaça ainda maior à sobrevivência desses fungos.
"Isso pode indicar que são endêmicos da bacia do Rio Cristalino (ou arredores), e sim, pode significar que são mais suscetíveis à extinção, principalmente por perda de habitat, por estarem numa região limítrofe do Arco do Desmatamento", alerta Juli.
Amazônia ainda pode esconder milhares de espécies desconhecidas
Nesse cenário, as áreas protegidas da região têm papel importante para a conservação da biodiversidade. Entre elas estão as RPPNs Cristalino, os parques estaduais Cristalino I e II e as terras indígenas, que ajudam a conter o avanço do desmatamento no sul da Amazônia.
A descoberta dos quatro cogumelos faz parte do Projeto Fungos do Cristalino, desenvolvido em parceria entre a Fundação Ecológica Cristalino (FEC), o Laboratório de Micologia da UFSC e Susanne Sourell. A iniciativa também conta com a colaboração de pesquisadores internacionais e apoio de bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Para Juli, os exemplares identificados representam apenas uma pequena parcela da biodiversidade amazônica que ainda precisa ser estudada. A pesquisadora acredita que milhares de espécies permanecem desconhecidas e que novas descobertas dependem da continuidade das pesquisas.
"A Amazônia abriga ainda milhares de espécies a serem descobertas, com certeza! Temos ainda muito trabalho a fazer, muitas espécies ainda a serem descritas", afirma.
A equipe também encontrou outros fungos que podem representar espécies inéditas. No entanto, a confirmação exige análises detalhadas, estudos moleculares e sequenciamento de DNA, procedimentos que demandam tempo, parcerias científicas e recursos financeiros. É um trabalho minucioso e detalhado, que requer parcerias e depende de financiamentos para biologia molecular, extração e sequenciamento do DNA.

CIENCIA (IA)


